Ao fim da tarde, dirijo-me ao Ganges, e passeio pela margem. É o meu ritual de regeneração do corpo e mente. Invarialvelmente este passeio enche-me de uma leveza espiritual que ando a tentar explicar-me.
Não deriva certamente do lúgubre espectáculo dos cadáveres a serem cremados. nem da decadência elaborada dos edifícios. Não é sequer pelo êxtase flutuante dos peregrinos que se enfiam no Ganges sujo, fétido, sacro - o êxtase é deles, e eu não sou um parasita do misticismo alheio.
Esta hora do dia, a luminosidade bálsamica e o anúncio da noite deixam no ser humano, desde que o é, uma sensação de serenidade. O que eu sinto em Varanasi é diferente, não é da hora do dia.
Para os Hindus, morrer aqui fecha o ciclo infinito de reencarnação, abre as portas do Paraíso eterno. A morte que eu espreito, tem uma condição positiva, "amável, desejável", na Europa o terror da morte suscitou a mais viva aspiração à imortalidade civil e espiritual; enquanto na Índia, o terror da vida suscitou uma oposta aspiração à anulação definitiva através da ascese, do nirvana.
O que eu sinto é a levesa espiritual de não estar preso ao terror da vida nem ao terror da morte. Sou um espectador livre de aproveitar cada dia como se fosse o último, de dar atenção a cada momento como se nele se cristalizassem todos os momentos da eternidade, de viver cada minuto com a intensidade e a concentração de quem deve nada, nem espera nada, em troca.
in planisfério pessoal de Gonçalo Cadilhe

a eternidade e um momento